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Análise: Professor Layton and the Unwound Future (DS) traz o Grand Finale da trilogia original de Layton

Viajando entre duas Londres — a do presente e a do futuro —, explorando o passado de seus personagens, e com mais animações, dublagens e enigmas que antes, o terceiro jogo de Layton é a culminação dos principais pontos de uma receita que deu (muito) certo!


Por que Layton usa uma cartola gigante em sua cabeça? Por que o gênio do mal, Don Paolo, tem tanto ódio em relação ao professor? Como que alguém tão elegante e cavalheiro como Hershel Layton não tem uma dama ao seu lado? Essas e diversas outras questões são destrinchadas na terceira entrada da série Professor Layton, que encerra a trilogia original com grande estilo e promete ser uma das aventuras mais emocionantes que você irá jogar no Nintendo DS.

Era uma vez um Professor britânico...

Para quem ainda não conhece a franquia a esta altura do campeonato, vai um pequeno retrospecto: Professor Layton e Luke Triton, um professor arqueólogo, típico gentleman londrino, e seu aprendiz (respectivamente), ambos aficionados por quebra-cabeças, estrearam no DS em 2007 com o singelo Professor Layton and the Curious Village. Agora contando com seis títulos para os portáteis da Nintendo (DS e 3DS) e também spin-off para celulares, a fama e qualidade da série se sustentou ao longo desses sete anos com base em três pilares: enigmas, carisma e animações.

Tudo dentro do jogo gira em torno da resolução de quebra-cabeças. Precisa perguntar a direção de um hotel para um personagem? Ele estará mais que disposto a ajudar… depois que você ajudá-lo a resolver o enigma que ele prometeu resolver para sua neta. Quer entrar naquela casa? que pena, não tem maçaneta, e sim um quebra-cabeça que envolve a combinação específica de uma sequêcia de números. Precisa atravessar uma floresta escura? Ilumine-a com lamparinas… através da resolução de um enigma. Quer… está bem, acho que você já entendeu… Mas por mais que sejam atirados ao monte na frente do jogador, eles é que são a graça e constituem a mecânica da jogabilidade do jogo. Um mais criativo que os outros, os enigmas variam desde análise de imagens, simples uso de lógica dedutiva, matemática ou alguns mais variados envolvem tabuleiros deslizantes e/ou mecânicas específicas. A cada enigma resolvido, mais você quer resolver. Eles são viciantes a ponto de que, mesmo quando não se está jogando o jogo, você se pega tentando descobrir a solução de um enigma que deixou passar. A sensação de resolver aquele quebra-cabeça escondido dificílimo é sem igual.


O carisma dos personagens, e da série, como um todo, também são sem par. Cada personagem, com destaque para os principais envolvidos efetivamente na trama, são bem caricatos e, desde os primeiros momentos do jogo, têm suas maiores características bem definidas e perceptíveis para o jogador. Conforme a história se desenrola, ao som de violinos e acordeões ao melhor estilo clássico da Grã Bretanha e cenários vitorianos embalados no tom pastel, o jogador vai cada vez mais se apegando aos personagens até alcançar o inevitável desfecho emocionante característico da série. E o melhor: tudo isso adornado por excelentes animações nos momentos-chave!

Agora que estamos familiarizados com a série, peguem todos esses pilares que mencionei e eleve ao quadrado. Esse é Unwound Future.

Deu certo antes? então aumenta e melhora!

Professor Layton and the Unwound Future é um daqueles clássicos exemplos de jogos de uma série que não vão mudar a mente de quem não curtiu suas primeiras iterações. Entretanto, para quem saboreou os puzzles de Curious Village e Diabolical Box, Unwound Future faz muito mais que a sua obrigação e define um patamar completamente novo para a franquia.

Se este trailer não lhe convenceu que o game tem um enredo interessante, a única coisa que lhe resta é ler as obras de Shakespeare.
Começando pela sua história, dessa vez Layton e Luke não são chamados para resolver o mistério presente em algum lugar, mas sim em alguma época. Uma versão de dez anos do futuro de Luke relata que Londres está passando por sérios problemas e que ele necessita da ajuda do professor para salvá-la. Combine isso com o desaparecimento do Primeiro Ministro e uma série de cientistas na demonstração de uma máquina do tempo alguns dias antes e você já pode sentir que o enredo de Unwound Future é muito mais substancial que o dos jogos anteriores. Ao chegar na Londres do futuro, descobrir que o responsável pelo caos que se instalou na capital da Inglaterra - agora dominada por bandidos - se deve à versão mais velha de Layton, a trama se complica ainda mais. Como se não bastasse, o Professor ainda se depara com alguém idêntico a um de seus primeiros amores, dando margem para sensacionais sequências de flashbacks e explorando a fundo a história do personagem principal.

A oportunidade de ver os seus personagens favoritos dez anos mais novos (via flashbacks) e dez anos mais velhos (via Londres do futuro) é impagável.
A introdução conta com,
miseravelmente, de 10 a 20
minutos de animação e
dublagem.
Não bastassem as inovações no enredo, as animações, agora de uma qualidade ainda maior, ficaram não só maiores (no geral) como também mais constantes, contando com um todo de 37 contra as 23 de Diabolical Box. Outra coisa que se fez mais presente foram os diálogos dublados. Nas versões anteriores, limitados à introdução do jogo, ao clímax e ao desfecho, aqui elas se fazem presentes nas
mais diversas ocasiões. Praticamente em todo o momento que havia desenvolvimento no enredo ocorria ou uma animação ou diálogo dublado. O total de três horas de diálogo ou animação apenas serve para reiterar o quão caprichosa a Level-5 foi com o encerramento da trilogia principal.

Como não podia deixar de ser, outra coisa que se tornou ainda mais frequente foram os enigmas. Totalizando 201, dentre os disponíveis para Donwload, os da história principal e os bônus após completar certos requisitos, isso não significa que os enigmas ficaram mais repetitivos ou randômicos; muito pelo contrário. Na maioria dos casos os quebra-cabeças foram inteligentemente integrados ao contexto em que são apresentados ao jogador, mesmo que superficialmente. Além disso, a variedade dos mesmos impressionam. A diversidade é tanta que fica até difícil encaixá-los dentro de um padrão ou categoria, como até então era algo fácil de se fazer.

É um passáro? É um avião? não, é a super ajuda!

Mais constante do que gostemos de admitir, nos jogos do professor nós acabamos nos deparamos com certos enigmas que simplesmente não se dobram perante o poder de nossa massa cinzenta. É aí que entram em questão as Hint Coins, moedas em quantidade limitada espalhadas pelo mundo do jogo, encontradas ao clicar nos mais diversos lugares — lâmpadas, lixeiras, chaminés… Ao custo de uma Hint Coin cada, era padrão da série que o jogador conseguisse até três dicas para ajudar na resolução dos enigmas mais difíceis. Visto que nem sempre a terceira dica providenciava toda a ajuda necessária, Unwound Future adiciona um novo elemento, a Super Hint. Ao custo de dois Hint Coins, a Super Hint providencia quase que um passo a passo de como resolver o enigma. Dada a quantidade limitada de moedas no mundo do jogo e o fato de que se gastam ao todo cinco delas para conseguir a Super Hint, ela adiciona uma mecânica interessante de custo-benefício ao jogo.
A trilha sonora continua impecável, exalando “britanicidade” (adjetivo invetado relacionado à Grã Bretanha, e não à Britney Spears, por favor não confundam), a trilha sonora apresenta mais diversidade do que as anteriores. Embora no geral ainda utilize os mesmos instrumentos (com uso intensivo de piano, sanfona, acordeão e violino), as grandes variações nos tempos das músicas e no quão presente um instrumento é em tal faixa fazem com que as músicas se destaquem ao ponto de serem reprisadas no filme Professor Layton and the Eternal Diva e receberem remixes para o crossover com Phoenix Wright.

Professor's Deductions, tema que estreou em Unwound Future, foi reprisado em todos os jogos subsequentes da franquia - incluindo o filme e o crossover.
Mas enquanto essa potencialização fez bem a todos os demais fatores do jogo, o visual acabou recebendo um efeito colateral. Não me entenda mal: os cenários continuam super detalhados e é incrível vê-los na tela do portátil com uma resolução tão diminuta. Ainda assim, ao nos presentearem com não só uma, mas DUAS Londres para serem exploradas (a do passado e do futuro), os constantes tons de bege, marrom, amarelo e vermelho acabam saturados e cansativos aos olhos do jogador. Por mais que tentem variar ao colocar uma floresta (?) e uma chinatown na Londres do futuro, os cenários mais variados se resumem a poucas telas e, para manter a unidade da direção de arte do jogo, acabam apresentando palhetas muito similares.



Voltem com o Hamster!

Como de praxe, Unwound Future também conta com três minigames para entreter o jogador de forma diferenciada e, eventualmente, desbloquear quebra-cabeças dificílimos ao serem completados. Entretanto, os jogos de Unwound Future faltam carisma e acabam sendo ofuscados pelos minigames vistos anteriormente. O papagaio entregador, em níveis avançados, acaba se resumindo em séries de tentativa e erro e o minigame do carro é uma versão menos customizável e mais simplificada do minigame do Hamster de Diabolical box — que, por sua vez, esbanjava carisma e criatividade. A ovelha negra, aquele terceiro minigame, sempre o menos interativo e mais sem graça, é um livro de adesivo cuja história muda de acordo com os adesivos colados. Apenas vale jogar pela presença de rostos conhecidos e para desbloquear todos os enigmas do jogo.

Unwound Future abre caminho para um futuro brilhante!

No geral, Professor Layton and the Unwound Future faz juz à saga do cavalheiro de cartola e a fecha com maestria, colocando um ponto final nas principais questões que pairavam sobre a cabeça dos fãs. Com um final ainda mais estapafúrdio que os anteriores, Unwound Future consegue também trazer a cutscene mais emocionante desde a morte de Aerith em Final Fantasy VII. Ao mexer no passado de Layton, a Level-5 consegue mostrar um lado mais humano do personagem e fazer com que os jogadores se simpatizem ainda mais com o já carismático personagem. Os flashbacks foram uma ótima adição ao enredo e é interessante ver que eles se mantiveram nos jogos seguinte ao ponto de que Miracle Mask se passa em duas épocas diferentes simultaneamente. Unwound Future segue a clássica regra de “em time que está ganhando não se mexe”, mas se isso fosse uma competição esportiva, seria eliminado pelo uso de anabolizantes. As principais características da série foram elevadas a um patamar tão elevado que resultou na decepção de vários jogadores com sua sequência, the Last Specter, mas ainda assim trouxe várias inovações que se tornaram padrões para os jogos subsequentes. Professor Layton and the Unwound Future é um jogo excelente e, mais do que isso, o seu final por si só já é motivo para que qualquer um experimente a série.

Prós:


  • Excelente Trilha Sonora;
  • Enigmas mais variados;
  • Enredo extravagante mas ainda assim brilhante;
  • Flashbacks adicionam profundidade ao Professor Layton;
  • Animações e dublagem mais frequente;
  • Super Hint é uma novidade bem-vinda.

Contras:


  • Ambientes repetitivos;
  • Minigames insossos;
  • Não se esforça para atrair novos jogadores.

Professor Layton and the Unwound Future — Nintendo DS — Nota 8,5

Duas Londres, mistérios ao longo de 30 anos, um professor e seu ajudante e vários enigmas a serem decifrados.
Revisão: Vitor Tibério
Capa: Douglas Fernades e Rafael Lam

Escreve para o Nintendo Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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