Discussão

Nintendo e Microsoft: cooperação ou competição na E3 2019?

Às vésperas da E3 2019, discutimos sobre a relação histórica entre Nintendo e Microsoft e como as mudanças no mercado podem sinalizar uma crescente cooperação entre elas.

Grande parte dos jogadores há de concordar que as semanas e os dias que antecedem a Electronic Entertainment Expo, popularmente conhecida como E3, são mágicos. De fato, é muitas vezes na famosa feira anual, iniciada em 1995, que as maiores empresas do ramo apresentam aos jogadores, imprensa e varejistas as suas principais novidades em termos de produtos e serviços, além de expectativas para o futuro.


Belas recordações não faltam para os fãs da Nintendo: foi, por exemplo, na E3 de 1996 que os americanos, salvo raras exceções, tiveram seu primeiro contato com o aguardado Nintendo 64 e seus títulos de lançamento, incluindo o clássico Super Mario 64 (N64). E como esquecer a lendária edição de 2004, onde The Legend of Zelda: Twilight Princess (GC/Wii) era finalmente revelado ao grande público por ninguém menos que o exímio Shigeru Miyamoto? Mais recentemente, tivemos como destaques a E3 de 2014, que trouxe consigo um olhar mais detalhado sobre os amiibos, e o evento de 2018, que, dentre outras novidades, confirmou que Super Smash Bros. Ultimate (Switch) traria de volta todos os lutadores da história da franquia.

Às vésperas de mais uma edição da E3, aguardamos ansiosos pelas surpresas que serão reveladas pela Big N em seu já tradicional Nintendo Direct. Porém, há uma peculiaridade neste ano: pela primeira vez desde a inauguração da feira, a gigante japonesa Sony não estará presente. Em tese, a inesperada ausência abre espaço para que Nintendo e Microsoft recebam maior atenção de toda a comunidade gamer. E aí entra uma grande questão: em vista dos acontecimentos recentes, estariam as duas empresas realmente em competição? Ou estaríamos testemunhando em primeira mão o nascimento de uma cooperação antes inimaginável? Continue conosco, caro leitor, enquanto refletimos sobre a relação entre as duas empresas e o que podemos esperar na E3 2019.

Nasce um novo competidor

Voltando no tempo, o lançamento do Xbox original representava a primeira vez que uma empresa americana buscava entrar no mercado de consoles após o fracasso da Atari. Desta vez, era a gigante Microsoft, conhecida principalmente por suas soluções em software. A ideia original era oferecer um sistema com configurações similares a um PC e que fizesse uso do DirectX, coleção de APIs que atuavam em jogos eletrônicos no Windows. Inicialmente chamado de DirectX Box e posteriormente abreviado como Xbox, o novo console chegou às lojas norte-americanas em novembro de 2001.
Dwayne Johnson, Bill Gates e o Xbox original
Para surpresa de muitos, inclusive executivos da própria Microsoft, a ideia deu certo. Mais de um milhão de unidades foram vendidas em menos de um mês nos Estados Unidos, sucesso devido em grande parte a uma campanha de marketing bem conduzida, que contou inclusive com a estrela Dwayne “The Rock” Johnson, e ao exclusivo Halo: Combat Evolved (XB), que se tornaria um fenômeno na América. Contra muitas expectativas, nascia ali um novo competidor no ramo de consoles com potencial para realmente fazer frente às já estabelecidas Sony e Nintendo.

De fato, mesmo sendo o novato no ringue, o console americano conseguiu superar o Nintendo GameCube em vendas totais, embora ambos tenham ficado bem aquém do sucesso alcançado pelo PlayStation 2. Ainda assim, um feito e tanto, que, junto ao desempenho do console da Sony, acabou desencadeando uma mudança de foco por parte da Nintendo para a geração seguinte.

A sétima geração

Portanto, nada de confusão até então: o objetivo da Microsoft sempre foi o embate com a Sony e a Nintendo na lucrativa e crescente indústria de videogames. Com a chegada da sétima geração, em 2005, esse objetivo estava ainda mais claro: o Xbox 360 reforçava as apostas no poderio gráfico e na conectividade online para atrair mais jogadores para seu lado. A estratégia, que envolveu inclusive o lançamento antes de seus concorrentes, deu certo: mais de 80 milhões de consoles foram vendidos até 2014, um crescimento exponencial em relação ao primeiro Xbox e a confirmação de que a marca havia vindo para ficar.

A nova geração também significou, como dito anteriormente, uma mudança no modus operandi da Big N. Na prática, o GameCube era um console tradicional como os outros do mercado. Mas duas derrotas seguidas para os concorrentes diretos levaram o então presidente Satoru Iwata a perseguir a estratégia “blue ocean” - ao invés de competir diretamente com o PlayStation e o Xbox em algo similar a uma corrida armamentista, a Nintendo exploraria áreas totalmente novas de design e entretenimento, uma tendência iniciada com o Nintendo DS e a sua então inovadora tela de toque.
Satoru Iwata e o Nintendo DS; console representou mudança de foco
O resultado, como nós sabemos, foi o saudoso Wii. Surpreendentemente, o foco aqui não era mais a capacidade gráfica, mas sim a inovação no modo de controlar nossos jogos favoritos. O projeto fez jus ao codinome Revolution - mais de 100 milhões de consoles foram vendidos desde seu lançamento em 2006, confirmando a noção de que inovar deveria ser a tônica da Nintendo dali em diante.

No entanto, tal estratégia custou à Big N a percepção por parte da comunidade gamer de que seus consoles não eram mais voltados aos jogadores hardcore - todos aqueles acessórios bizarros feitos na China certamente não ajudaram. Embora tal distinção não seja unânime ou mesmo tenha fundamentos reais, fato é que o Wii, por diversos motivos, não recebeu muitos dos principais jogos de sua geração, como Grand Theft Auto IV (Multi) e The Elder Scrolls V: Skyrim (Multi). Muitos jogadores, percebendo a situação de antemão, então optaram por ter o console da Nintendo e mais um, dando origem à expressão “Wii360”, ainda hoje encontrada em sites da época. Afinal, à época de lançamento, os dois consoles juntos ainda não alcançavam o preço do PlayStation 3 em algumas lojas. Era o início remoto de uma aproximação entre as empresas, mas a próxima e atual geração traria ainda mais novidades.

2012 - presente

A oitava e presente geração de consoles chegou carregada de expectativas: sob variados ângulos, todos os consoles anteriores - Nintendo Wii, PlayStation 3 e Xbox 360 - tinham sido bem-sucedidos e recebido bons jogos. Além disso, diversos títulos que marcaram os consoles anteriores provavelmente receberiam sequências ainda maiores e melhores - alguém mais ainda espera ansiosamente por Super Mario Galaxy 3? No entanto, as coisas certamente não aconteceram como esperado: após o seu lançamento em 2012, o Wii U jamais engrenou, e embora nos tenha oferecido excelentes títulos, terminou prematuramente descontinuado como o segundo maior fracasso da Nintendo, à frente apenas do Virtual Boy.

Com o Wii U fora de combate, o caminho estava livre para Sony e Microsoft. Mas erros pontuais custaram muito caro à empresa americana. Após um evento inicial em maio, a Microsoft foi a primeira a se apresentar na fundamental E3 de 2013 - a última antes do lançamento em novembro - e os planos para o sucessor do Xbox 360 não eram nada animadores. O aparelho deveria obrigatoriamente se conectar à internet a cada 24 horas, e jogos usados não funcionariam como, bem, funcionaram em todo console feito pela humanidade até então - você deveria autenticar o disco através de uma conexão à internet, e a produtora poderia aplicar taxas em cima disso. O fato de que alguém em algum lugar pensou que esse processo seria uma boa ideia até hoje causa arrepios.
O golpe final no Xbox One
E não parou por aí: o novo console custaria US$500 ($100 a mais que o PS4, que contava com um melhor desempenho) e acompanharia obrigatoriamente uma versão melhorada do Kinect. Embora as políticas em relação à conexão obrigatória à internet e jogos usados tivessem sido removidas em menos de um mês após a E3, o estrago já estava feito junto ao público. Após seu lançamento original, o Xbox One nunca conseguiu se aproximar do PlayStation 4 em vendas, fato que permanece até os dias atuais, ao ponto em que a Microsoft parou de revelar as vendas totais de seu produto.

Os dois fracassos, portanto, obrigaram Nintendo e Microsoft a se reinventarem. A Nintendo tentou o que pode com seu console, mas a partir do momento que ficou claro que não daria mais certo, focou seus esforços no Nintendo 3DS e no desenvolvimento e lançamento do Nintendo Switch. A trinca de bons jogos exclusivos, design cativante e concisa campanha de marketing deu muito certo para a Big N e seu híbrido. O caminho da Microsoft não foi tão simples - afinal simplesmente matar o Xbox One e lançar um novo console provavelmente não faria efeito - mas finalmente nos traz à questão chave deste texto.

Um mercado em mudança

Atualmente, é inegável que estamos à beira de uma mudança no modo como consumimos games. Assim como já ocorre com música e filmes, o anúncio de plataformas como o Google Stadia sinaliza que jogos via streaming não são mais uma realidade inalcançável. E esta mudança interessa diretamente à Microsoft, uma das maiores empresas do mundo no que tange à computação em nuvem.

Explica-se: a baixa performance do Xbox One no mercado levou a gigante de Redmond a ter uma visão mais ampla do mercado como um todo. Junto com essa visão vem a necessidade de reinventar seu produto enquanto acompanha as transformações do mercado no qual o mesmo está inserido. A retrocompatibilidade presente nos consoles Xbox One e mais precisamente o serviço Xbox Game Pass, além de iniciativas como Cross-Play, Play Anywhere e o aguardado XCloud estão diretamente relacionadas à isso. Sob a liderança do carismático Phil Spencer, o Xbox One conseguiu uma identidade própria, que - aqui está a surpresa - pretende ir além dos consoles da Microsoft.
O anúncio de Cuphead (Switch) pode ter sido somente a ponta do iceberg
Não, não deixaremos de ter um console tradicional Xbox (o Xbox One S e o Xbox One X provaram isso), mas se o XCloud e os anúncios recentes, impensáveis em 2013, de que o Xbox Game Pass chegaria ao PC e Halo: The Master Chief Collection (XBO) chegaria ao Steam não deixaram claro, dizemos agora: a nova gestão da Microsoft entende o Xbox como uma plataforma além dos consoles ou de um ecossistema fechado. E isso pode incluir diretamente a Nintendo, como visto no anúncio de Cuphead (Switch) e da Xbox Live e nos rumores que o Xbox Game Pass poderia chegar ao Switch.

E ambas as empresas podem se beneficiar de acordos: caso os rumores se confirmem e o Xbox Game Pass chegue ao Switch por streaming, os donos do híbrido terão acesso a títulos que nativamente não poderiam rodar no console, como Monster Hunter: World (Multi) e Forza Horizon 4 (XBO/PC), enquanto a Microsoft poderá usar o lucro obtido - inclusive com o Japão, um mercado notoriamente hostil à sua presença - para investir em novos jogos para o serviço. Basta ver o sucesso de Cuphead e Minecraft no Switch, bem como do Cross-Play, para ver que esta é uma relação que tem tudo para dar certo.

E isso tudo ainda não leva em conta a possibilidade de que a parceria vá além. E se a Rare trabalhasse em conjunto com a Nintendo em um novo Banjo-Kazooie para Xbox e Switch? Ou, melhor ainda, em um Donkey Kong em 3D, aos moldes de Donkey Kong 64 (N64)? As possibilidades são infinitas.

Considerações finais

Como o anúncio do Google Stadia confirmou, o mercado de games está se preparando para uma grande mudança. Pode ser que não seja agora, mas em dez anos é difícil pensar que o streaming não será considerado ao menos como opção por uma geração que já crescerá acostumada com a praticidade oferecida pelo mesmo. 

Ao olhar além das barreiras impostas por um console físico, a Microsoft aumenta exponencialmente o espectro de possíveis consumidores de seus produtos e serviços ao mesmo passo em que amplia seu reconhecimento no mercado. É uma tendência que a empresa já mostrou que pretende perseguir e pode render bons frutos tanto para os fãs do Xbox como para os jogadores de outros dispositivos. A própria Nintendo já fez isso ao anunciar que desenvolveria aplicações para dispositivos móveis, e a comunidade, embora receosa, por fim abraçou a causa.

Em um mercado competitivo, associações e parcerias entre empresas são mais comuns do que parece. Portanto, a cooperação entre Nintendo e Microsoft provavelmente ganhará novos capítulos na E3 deste ano. Como dito, é uma reação às circunstâncias que, caso venha realmente à fruição, beneficiará todas as partes envolvidas, incluindo a indústria como um todo. E você, caro leitor, o que acha dessa discussão? Estariam Nintendo e Microsoft cooperando ou em franca competição? Haverão novidades nesta E3? Não se esqueça de comentar!

Revisão: Pedro Franco

é bacharel em Produção Cultural pela UFF e estudante de Comunicação Social pela FSMA. Na infância, ganhou um Super Nintendo dos pais e, desde então, nunca mais deixou o mundo dos games. Ainda sonha em ser um Mestre Pokémon.

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